Localizada em área nobre da capital paulista, ocupação Penha Pietra’s acolhe famílias em situação de vulnerabilidade social
17 abr 2023
Com o objetivo de fornecer moradia para pessoas sem-teto, o projeto Penha Pietra’s começou, em novembro de 2021, a estudar a ocupação do que um dia já foi o Hotel Paulista. Na esquina entre Avenida Paulista e Consolação, mulheres engajadas em movimentos sociais trouxeram consigo cerca de 64 famílias que não tinham onde se estabelecer.
O espaço se mantém por meio de doações de outras ocupações e contribuição dos próprios moradores. Giulia Assunção, de 24 anos, moradora do local, diz que tudo se faz de modo voluntário: “Desde a captação de recursos até a segurança da ‘ocupa’, tudo é feito de maneira coletiva”. Dentro das paredes do edifício, residentes revezam-se entre cuidar da portaria e cozinhar para todos. Em especial, para as muitas crianças que moram ali.
Diversas crianças passam pela recreação da ocupação | Foto: Ana Carolina Maciel
Passam pela Penha Pietra’s cerca de 30 crianças, de três a 13 anos. Às sextas-feiras, atividades de recreação infantil acontecem no primeiro andar do prédio. Com o ambiente colorido, adaptado para os pequenos, música, saraus, circo, pintura e dança são apresentados para a garotada. Entre os próprios filhos dos moradores, também participam crianças imigrantes de outros países latinos, cujos pais buscam melhoria de vida e estabilidade no Brasil. Todos são estimulados a lidar com suas diferenças e aprender uma nova cultura com um novo idioma.
Quem coordena o trabalho com as crianças é Giovana Lin, de 25 anos, estudante do último ano de psicologia. Desde abril de 2022, Giovana realiza seu estágio com esse projeto. A universitária traz novas propostas de brincadeiras, artesanatos e leituras toda semana e observa como os pequenos reagem a esses estímulos, assim podendo planejar o que será passado a cada sexta-feira. Para ela, garantir o direito de ser criança é fundamental. Quando Giovana chega dentro do prédio, vários gritos agudos estremecem o espaço: “Tia!!! Você chegou!!!”. Para a criançada, cada vez que a futura psicóloga põe os pés na ocupação, é sempre uma festa.
Mãe de três crianças dentro do prédio, Fabiana de Jesus, de 33 anos, garante que seus filhos amam o lugar. Moradora desde os primórdios de Penha Pietra’s, Fabiana consegue manter sua renda ajudando dentro da ocupação, com o acréscimo da certeza de que sua filha e seus dois rapazes crescerão com consciência dos conceitos de luta por direitos básicos e resistência.
Ocupação recebe nome de fundadora de escola de ballet | Foto: Ana Carolina Maciel
A ocupação Penha Pietra’s foi batizada dessa forma em homenagem à primeira mulher negra, de mesmo nome, fundadora de uma escola de ballet. Assim como Penha, os moradores da ocupação auxiliam jovens e adultos a conquistarem sua sobrevivência a cada dia, tudo sem fins lucrativos: “O verdadeiro objetivo é mostrar para o sistema que nós existimos”, diz Robson Santos, de 26 anos, um dos frequentadores da ocupação.
Robson, estudante de engenharia na Universidade Presbiteriana Mackenzie, explica que no início do ano lançou uma campanha na internet para arrecadação de fundos para o projeto. A postagem chegou ao conhecimento de um youtuber, que se prontificou a comprar e doar utensílios de cozinha para o local. Assim começou a história da “ocupa”, como os moradores carinhosamente apelidaram o lugar.
O Hotel Paulista, ambiente onde é localizada a Penha Pietra’s, faliu durante a quarentena. Depois de muita análise e estudo, o movimento Frente de Luta por Moradia (FLM), que entra em conflito com o sistema em prol de pessoas sem abrigo, esteve presente em todo o processo de ocupação e reforma do espaço. Quando novas ocupações são realizadas, moradores da Penha e ativistas do FLM levam comida e auxílio para os novos habitantes que conseguiram um lar para chamar de seu.
Mesmo que seja um espaço acolhedor para muitas famílias, ainda há pessoas que possuem preconceitos contra os residentes da ocupação. Felipe do Carmo, de 36 anos, que esteve presente em toda a fase inicial de habitação do edifício, assegura: “As pessoas acham que quem tá aqui faz parte da criminalidade. Não é assim. Existem muitas pessoas sem teto e muitos lugares vazios. As pessoas precisam de um lugar pra morar hoje, agora. A injustiça tá na cara”.
∗ Apuração feita com apoio de Julia Guaraldi.