Editei o podcast “Pra quê serve a arte?”, atividade nota 10 da disciplina História da Arte
11 abr 2025
[Trilha musical]
Amanda Rocha: Olá! Eu sou Amanda Rocha e hoje vamos explorar uma profissão que nem sempre recebe o destaque que merece no mundo artístico: a dos artistas independentes. Para isso, convidei Rodrigo Baggio, Vinicius Oliveira, Leleto Bonfim e Andarilho Chá, que irão compartilhar suas experiências, desafios e a relação deles com a arte. Fiquem com a gente para essa conversa especial.
[Trilha musical]
Amanda Rocha: Para começar essa conversa com os nossos convidados, eu vou pedir que eles me contem um pouco sobre como a sua relação com a arte começou e como eles chegaram a ser os artistas que são hoje.
[Instrumental: Bolero Breve – Rodrigo Baggio]
Rodrigo Baggio: Eu sou Rodrigo Baggio, tenho 49 anos, trabalho como músico há 29 anos. A música começou muito cedo na minha vida, aliás, ela sempre esteve presente em minha vida. E, desde pequeno, essa questão do criar sempre me chamou a atenção. Me lembro que gostava muito de fazer coisas que levassem à criação. E, a partir disso, com a curiosidade sobre a criação, eu fui buscar um instrumento para tocar e, a partir dele, criar. A partir disso, foi expandindo o estudo, porque uma coisa vai puxando a outra, principalmente no âmbito da composição e da improvisação, e aí eu cheguei à produção musical. Então, eu vejo que é tudo uma única coisa para mim. Eu não me considero mais ou menos uma das atividades. Eu vejo todas como o Rodrigo Baggio artista, que é o ponto mais importante para mim. Então, hoje, eu trabalho com produção musical, mas tenho também a minha carreira como performer e também tive a minha carreira como educador, que é uma parte que eu gosto bastante também.
[Música: Esclareça Ao Tal – Banda Tupinambá e Seus Turebas]
Vinicius Oliveira: Olá. Meu nome é Vinicius Oliveira, tenho 48 anos, sou artista, mais especificamente músico, contrabaixista [risos]. E o que me levou a me tornar um músico, um artista, foi por influências do meu pai, dos meus avós… A música sempre foi muito presente dentro de casa, né? Por mais que meus pais, meus avós não vivessem profissionalmente da música, a música sempre foi muito presente nas festas, nos encontros de família, né?
[Trilha sonora]
Amanda Rocha: E, além dos nossos músicos, hoje estamos com dois atores, que vão compartilhar os desafios e o amor pela arte.
[Trecho do curta Jogo do Bicho]
Leleto Bonfim: Sou o Leleto, sou ator, sou formado pela Escola de Arte Dramática da USP. Meus trabalhos mais recentes são os espetáculos “Clarice e Mário”, com direção de Cristiane Paoli-Quito; “Clandestinos, Botequim Cantante”, com direção de Tiche Vianna; e “O Crime da Cabra”, com direção do Clayton Nascimento. Além disso, tenho trabalhos também no audiovisual, como as séries “Irmandade”, “Pico da Neblina”, curta-metragem Jogo do Bicho, enfim. Mas o que me tornou a ser um artista foi uma paixão de criança mesmo. A primeira vez que eu vi o teatro, eu logo me encantei e eu coloquei na minha cabeça que eu queria aquilo para minha vida. Eu cresci numa família muito simples, que nunca teve contato com teatro, com literatura, com cinema, né? Minha família não tinha esse tempo, não tinha essa possibilidade desses contatos. A primeira vez que a minha família entrou no teatro foi para assistir ao meu primeiro espetáculo.
[Trecho do minidocumentário Alguém Tem Que Meter o Louco]
Andarilho Chá: Andarilho Chá aqui na área, tudo bem? O que me levou a me tornar um artista… Eu costumo me entender como um artista meio que da vida inteira, porque, desde pequeno, eu sempre fui aquela criança artística. Meu pai também dividia a carreira entre outros trabalhos e também como cantor. Então, desde pequeno, essa veia artística esteve dentro de mim. Diferente de outras situações, no caso da minha — pessoa periférica, bicha preta periférica e com outras prioridades, né? — de início, não tinha essa visão que eu tenho hoje em dia de “ai, eu vou estudar arte”. Também não tinha incentivo da minha família, porque é aquela velha história de que tem que trabalhar [risos] pra ajudar em casa.
[Trilha sonora]
Amanda Rocha: Muito interessantes as histórias de como eles se encontraram no mundo artístico. Gostaria de convidá-los a compartilhar suas experiências e reflexões sobre suas jornadas na música e na atuação.
Andarilho Chá: Eu costumo entender a arte — porque agora não estou falando só de teatro ou música. Mas existem outras expressões artísticas que tocam as pessoas, né? É esse movimento de criar algo, entregar algo e essa pessoa ser tocada, o próximo ser tocado. E, às vezes, o próximo consegue responder. E é algo que você não consegue pesar numa balança, é sobre sentimento. Eu penso na sociedade que nós vivemos hoje, onde, a cada dia que passa, é uma sociedade mais líquida, com constantes, também, transformações enlouquecedoras e com uma sociedade totalmente ligada ao capitalismo, ligada ao que parece o distanciamento do ser humano, o distanciamento da sensibilidade. E aí vem a arte como resposta disso.
[Trecho do minidocumentário Alguém Tem Que Meter o Louco]
Leleto Bonfim: E aí, sobre o que eu acredito, sobre o sentido da arte, acho difícil eu responder isso, porque eu não sei se a arte tem um sentido — pelo menos um sentido único, né? Eu acho que isso vai depender muito de cada povo, de cada tempo, de cada momento histórico. Mas a arte tem uma força maior do que o tempo, do que tudo, né? Do que todos. A arte existe desde que o mundo é mundo. Acredito que a arte é uma ferramenta necessária para a gente conseguir sobreviver, para a gente imaginar novos horizontes, novas maneiras de se relacionar e de existir nesse mundo através da sensibilidade. Mesmo quando a arte vem de uma forma mais crua, mais cruel, ela não deixa de ser sensível. A arte precisa ser sensível, ela tem que tocar para um outro lugar do que a gente tá acostumado no dia a dia. Então, não sei se tem um sentido na arte, mas eu sei que ela tem essa força. Eu acho que a arte é algo que, sem querer romantizar a coisa, mas ela é como um oxigênio, assim. Eu acho que, sem arte, a gente não consegue respirar, a gente sufoca.
[Trecho do curta Jogo do Bicho]
Vinicius Oliveira: O que eu acredito ser o sentido da arte… É meio complexo esse tema, porque a arte envolve muito sentimento mesmo, né? Acho que vai de cada um, né? Eu consigo falar mais sobre a importância da arte. Eu acho que, se for pra definir qual o sentido da arte, o primeiro momento, pra mim, que vem é que a arte cura, que a arte emociona, né? Então, a princípio, é isso. Não tem como definir o sentido da arte, acho que é muito pessoal mesmo. Mas, no primeiro momento que vem para mim, assim, é o poder de cura também.
[Música: Esclareça Ao Tal – Banda Tupinambá e Seus Turebas]
Rodrigo Baggio: Na minha visão, a arte é algo existencial. Então, usar a palavra “sentido” aqui para chegarmos a um conceito não me é muito favorável, porque, partindo do significado da palavra “sentido”, que pode ser entendida como “aspecto” ou “modo”, estaríamos colocando ou imprimindo à arte um valor parcial que parte de uma visão específica, que não é algo errado ou negativo, mas que não contempla tudo que a arte representa. Nesse caminho, a música, para mim, representa sempre a expressão da minha cosmovisão. Eu sempre busco, em cada momento do meu dia, viver a música. Então, nesse sentido, eu realmente entendo a coisa como algo já existente e eu estou, a cada momento do meu dia, buscando criar a partir da minha cosmovisão. A arte já é algo existencial, e cada artista dará um sentido específico a partir de sua cosmovisão. Mas não vejo, pelo menos hoje, um sentido geral para a arte.
[Trilha sonora]
Amanda Rocha: E como vocês conseguiram definir essa beleza e genialidade que a arte traz?
Rodrigo Baggio: Na minha visão, quando o artista consegue expressar a sua cosmovisão com conteúdo técnico adequado e a partir da sua obra criada, nessa perspectiva, consegue atrair as pessoas emocionalmente e mentalmente também, no tocante à reflexão, temos aí um dos critérios de beleza artística. Por que eu digo um? Porque, para mim, não há apenas uma forma de beleza artística. Temos algumas formas, senão várias formas. Eu ainda estou descobrindo essas formas de beleza artística. Mas, resumidamente, vejo que esse é um dos caminhos. Considerando que a questão da cosmovisão é muito importante pra mim, eu parto deste ponto, onde, como instrumentista, eu faço música vislumbrando o artístico — não só o comercial, vamos dizer assim, porque esta é a minha profissão — mas o artístico a partir de todas as referências que eu tenho vividas e refletidas.
[Instrumental: Fado Paulistano – Rodrigo Baggio]
Leleto Bonfim: E definir beleza e genialidade artísticas… Nossa, eu acredito na arte mais pura e mais simples e mais… A arte que não é arrogante, que não é prepotente, que muitas vezes a gente encontra no ambiente da elite, que a gente encontra no ambiente acadêmico. Mas é a arte que a gente encontra ali, na maior simplicidade, que é muito difícil fazer — essa arte simples — e que consegue se comunicar com qualquer pessoa. E aí, pensando nisso, eu lembro do Manoel de Barros. Ele tem um… Enfim, que é um gênio… Então, eu tento aprender com esses gênios. Ele tem um poema — eu não vou lembrar de cor — mas que ele fala… Eu lembro que é sobre… Ele fala: “palavras que me aceitam como sou, eu não aceito”. E aí ele vai falando sobre não querer ser, sobre não aguentar ser apenas um cara que abre portas, que olha o relógio, que vai na padaria comprar pão no final da tarde, que vai lá fora etc., etc. Ele pede perdão e ele fala que precisa ser outros. Que ele pensa em… Eu não lembro se é “reinventar” ou “renovar” o homem usando borboletas. Eu acho que a beleza tá aí, né? Em querer reinventar o mundo usando borboletas, que é usando um outro jeito de pensar, se comunicar, um outro jeito de ser no mundo. É isso, acho que tá aí a beleza.
[Trecho do curta Jogo do Bicho]
Vinicius Oliveira: Como definir a beleza e a genialidade artística? Eu acho que é surpreendente, né? Mágico, né? Uma coisa mágica que o artista consegue provocar no ser humano com sua arte. Atingir um certo objetivo que é genialidade. Isso é genialidade. Então, como definir isso? Eu acho surpreendente — falei no início — pode ser mágico também, coisa mágica [risos] dar um nome, né? Mas eu acho que é isso.
[Música: Esclareça Ao Tal – Banda Tupinambá e Seus Turebas]
Rodrigo Baggio: Na minha visão, no caso, um artista gênio é um artista dotado de uma alta habilidade, sempre colocada em prática de forma objetiva, mas que, pra ele, é muito fácil, é muito natural. E ele sempre consegue ativar, com base em sua cosmovisão — que nós já falamos anteriormente — ele sempre consegue ativar um produto que vai comunicar de forma eficaz a um grupo de pessoas que, como disse anteriormente, pode ser uma pessoa ou várias pessoas.
[Trilha sonora]
Amanda Rocha: E, depois da nossa conversa com esses artistas incríveis, vamos encerrando o nosso programa de hoje. Muito obrigada pela companhia e fiquem ligados ao nosso próximo episódio.
[Trilha sonora]
Amanda Rocha: Esta é uma produção da disciplina História da Arte, do quinto semestre do curso de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, turma 5D, ministrada pelo professor Marcelo Moreira. A atividade foi realizada por Amanda Rocha, Ana Carolina Maciel, Fernanda Lima, Jean Werneck e Tainá Fonseca. Você ouviu: Fado Paulistano e Bolero Breve, do canal Rodrigo Baggio no YouTube; Esclareça ao Tal, da Banda Tupinambá e Seus Turebas, do canal oficial da banda no YouTube; Alguém Tem Que Meter o Louco, do canal Andarilho Chá (Oficial) no YouTube; e trechos da curta Jogo do Bicho (2022), disponibilizado no perfil de Leleto Bonfim no Vimeo.