Contra o câncer de pele, uma batalha que vai além do próprio corpo
14 maio 2025
Dá-se um nome a um filho como quem entrega um destino. Escolhe-se o som, a cadência das sílabas, o peso do significado. Carla e Carlos são dois nomes que quase se refletem no espelho, separados apenas pela sutileza de uma vogal e pela consoante que a segue. No começo, eram apenas registros no papel. Embora não se conheçam, para eles, que hoje dividem a cicatriz deixada pelo Sol, o nome se inscreveu de outra forma: na pele.
Carla Gil Fernandes, de 49 anos, advogada e vice-presidente do Instituto Melanoma Brasil, enfrentou o melanoma e fez da própria dor uma bandeira de conscientização. Carlos Toaldo, campeão mundial de vôlei, tem câncer de pele não melanoma, passou por cirurgias e empresta sua experiência à gestão de carreiras esportivas. Dois nomes semelhantes, duas histórias entrelaçadas pelo enfrentamento ao câncer.

Carla Gil, vice-presidente do Instituto Melanoma Brasil | Foto: Arquivo pessoal
A advogada tem uma feição familiar. Talvez porque seus quatro filhos – Marcela, 27; Gabriela, 25; Laura, 21; e o caçula Luca, 20 – tenham idades que remetem à rotina de muitas famílias brasileiras. O rosto de pele clara, com algumas marcações pelo tempo, óculos grandes, cabelo liso e uma voz mansa, não se lembra exatamente de quando percebeu que aquela pinta em sua pele era mais do que um detalhe passageiro. No início, parecia inofensiva – uma pequena alteração, um incômodo discreto. Mas o tempo passou, e depois de remover o sinal duas ou três vezes na adolescência, a vida adulta trouxe de volta o velho fantasma em sua nuca. Quando veio o diagnóstico, a palavra “melanoma” soou como uma sentença. Ela, uma mulher ativa, mãe, esposa, viu-se diante de um abismo. A batalha começou antes mesmo do primeiro tratamento. O medo era um adversário tão presente quanto a doença. A palavra “câncer” ecoava na cabeça, carregada de incertezas. A luta não era só contra o tumor – era também contra o desconhecimento, contra a dificuldade de acesso ao tratamento, contra a banalização dos perigos do Sol.
Nascido em um contexto no qual o vôlei se tornava cada vez mais relevante para o país, Carlos Toaldo, 55 anos, pele clara e imponentes dois metros e um centímetro de altura, se destacou nas quadras e se consagrou como um dos grandes campeões da modalidade. Com passagens pela seleção brasileira, ele colecionou títulos importantes, sendo o maior deles a Liga Mundial de 1993. Pai de duas bailarinas, Maria Eduarda, de 22 anos, e Maria Clara, 19 — nomes quase gêmeos, como que escolhidos para rimar com a história desta reportagem — ele também levou sua experiência às transmissões esportivas, atuando como comentarista na Band. No auge da carreira, ainda jogando como central, posição que exige agilidade para bloquear ataques e apoiar o time na rede, ele precisou lidar com um desafio inesperado: o diagnóstico de um carcinoma. Após a cirurgia e a recuperação, voltou à vida esportiva, mas anos depois, novos casos surgiriam.
A pele, o maior órgão do corpo humano, também é um arquivo de memórias. Para Carla e Carlos, o Sol não foi apenas luz, mas também cicatriz. E eles não são os únicos.
A enfermidade divide-se em dois tipos: o melanoma e o não melanoma. O primeiro, menos frequente, é também o mais agressivo, responsável por 75% das mortes por câncer de pele no país, segundo o Instituto Melanoma Brasil. Infiltra-se na pele silenciosamente, disfarçado de uma mancha ou de uma pinta inofensiva. É traiçoeiro. Quando diagnosticado tardiamente, espalha-se pelo corpo, atingindo outros órgãos. O segundo, ainda que menos letal, tem origem nos carcinomas, tumores formados a partir de células da pele que sofrem mutações e se multiplicam de forma descontrolada. Esse tipo exige cirurgias que alteram a identidade de um corpo.
Somos o país com maior número de casos de câncer de pele do mundo. É o tipo mais comum no Brasil, representando 30% dos diagnósticos oncológicos, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA). Entre 2023 e 2025, o país registrou, anualmente, aproximadamente 220,5 mil casos de câncer de pele não melanoma e 9 mil casos de melanoma. Em São Paulo, as internações por essa doença aumentaram 6,2% em 2023, reflexo da crescente exposição ao Sol e do acesso ainda limitado à prevenção.
Carla enfrentou um percurso tortuoso para conseguir a imunoterapia pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A burocracia era um terreno familiar para a advogada do ramo do direito tributário, mas nada se comparava ao labirinto que encontrou quando precisou garantir o próprio tratamento. Ao lado do marido, Everson Fernandes, 49, lutou na Justiça em causa própria para ter acesso ao Nivolumabe, medicamento fundamental para seu tratamento.
A espera, os trâmites e a incerteza fizeram do processo um sofrimento adicional. Ao se lembrar desse momento, Everson tem dificuldade de conter a emoção. Não apenas pelo medo da doença que o casal tinha na época, ou pela impotência diante de um sistema que pareceu, por meses, indiferente ao tempo que ela não tinha; mas pela sensação de êxtase em saber que havia uma luz em meio a essa escuridão que os consumia.
Com a vitória na Justiça, Carla teve acesso ao tratamento e sobreviveu para transformar sua própria dor em causa. Mas nada mais voltou a ser como antes. “A gente passa a enxergar a vida de outro jeito”, disse. As pequenas coisas, antes banais, agora carregavam um peso diferente. O Sol que um dia apenas iluminava, hoje também carrega uma lembrança. As marcas que ficaram são também um lembrete da luta que travou e das batalhas que outros ainda enfrentam.
Para muita gente, a dificuldade de acesso não para nos medicamentos. A proteção solar, arma mais eficaz na prevenção ao câncer de pele, é tratada como um luxo. A dermatologista Vanessa Mussupapo, que apoia o Melanoma Brasil, destaca que o acesso ao protetor solar ainda é uma barreira para a prevenção do câncer de pele, especialmente para a população de baixa renda. Embora o filtro solar seja um item essencial de proteção, ele ainda não é distribuído gratuitamente pelo SUS de forma ampla, o que dificulta a adesão da população ao uso contínuo. Em sua experiência com pacientes, Vanessa vê repetidamente casos de diagnósticos tardios e dificuldades no tratamento. “Boa parte das pessoas não têm acesso a acompanhamento dermatológico regular. Quando percebem que há algo errado, já estão em um estágio avançado da doença”, explicou. E o impacto não é só clínico: o tratamento de um câncer avançado custa muito mais ao sistema público do que a prevenção. É uma conta que nunca fecha.
Para indivíduos de baixa renda, o custo elevado de protetores solares com alto fator de proteção solar (FPS), como o FPS 99, indicado para pessoas em tratamento de câncer de pele, é um obstáculo na prevenção e no cuidado. O Protetor Solar Loção FPS 99 de 120g da marca Anasol, por exemplo, é comercializado por aproximadamente R$ 59,79. Já o ISDIN Foto Ultra Spot Prevent FPS 99, destinado à proteção facial, é encontrado por valores entre R$ 130,90 e R$ 195,50, dependendo do ponto de venda. Considerando que a aplicação adequada de protetor solar requer reaplicações a cada duas horas para manter sua eficácia, especialmente durante a exposição contínua ao Sol, o consumo desses produtos aumenta. Consequentemente, os gastos com protetores solares se acumulam rapidamente, tornando-se um peso financeiro considerável.
A necessidade de reaplicação frequente, aliada ao alto custo dos produtos de FPS elevado, coloca trabalhadores que passam longos períodos ao ar livre, como agricultores, vendedores ambulantes e operários da construção civil, em uma posição vulnerável. Sem acesso à proteção solar adequada, essas pessoas enfrentam um risco aumentado de desenvolver câncer de pele.

Carlos Toaldo, ex-jogador de vôlei, convive com as marcas deixadas pelo câncer de pele | Foto: Ana Carolina Maciel
Atleta e acostumado a passar longas horas treinando sob o Sol, Carlos tinha uma pele que já carregava a marca da exposição constante. Mas o primeiro alerta veio cedo: aos 29 anos, ainda em plena forma esportiva, percebeu pequenas lesões na pele. “Eram pré-lesões, nada que assustasse”, contou. O diagnóstico passou quase despercebido. Fez a cirurgia necessária para a remoção com margem, tomou pontos e seguiu jogando, colecionando títulos, sem que aquilo se tornasse uma preocupação real.
Foi só depois da aposentadoria, quando os dias sob a sombra se tornaram a maioria, que as manchas voltaram a chamar sua atenção. O carcinoma basocelular, um dos tipos de câncer de pele não melanoma, apareceu em regiões inesperadas. Uma mancha no peito, em uma área geralmente coberta pela camisa. “Eu achava que era algo que só aparecia em lugares expostos, mas não. O dano solar é cumulativo, ele fica na pele”, diz Carlos.
Outra Vanessa, Vanessa D’Andretta Tanaka, dermatologista do Hospital do Amor, confirmou essa lógica. Ela explicou que fatores de proteção acima de 30 oferecem uma proteção de 97% contra os raios ultravioleta, desde que aplicados corretamente, em camadas generosas e com reaplicações a cada duas ou três horas. Mesmo assim, é importante passar o produto debaixo das roupas. Não necessariamente o tecido que cobre seu corpo vai protegê-lo dos raios solares. Para maior segurança, a médica recomenda fatores acima de 50, que permitem intervalos um pouco maiores entre as reaplicações. Em uma pesquisa rápida, é possível encontrar o Protetor Solar Anasol FPS 50 (350 ml) por R$ 62,99, enquanto o Protetor Solar Facial Eucerin FPS 50 Anti-Idade (52g) custa R$ 77,99, e a versão sem cor de 30g, R$ 65,00. Colocando as contas no papel, esses valores representam entre 4,15% a 5,14% do salário mínimo de 2025, fixado em R$ 1.518,00.
Carlos admite: nunca foi dos mais cuidadosos com a proteção solar. Deveria ter usado filtro regularmente, sobretudo no rosto e nos braços, mas não fez. E agora paga o preço. A consciência sobre a gravidade da doença veio não só com o próprio diagnóstico, mas também com a morte da mãe de uma jovem atleta que representava em sua agência, a Business Entertainment and Sports, vítima de um câncer de pele agressivo aos 45 anos. Hoje, encara as consequências. Já passou por cirurgias para remover carcinomas no peito, perna, braço e punho e ainda precisará tratar lesões no nariz, pescoço e costas. Como alerta Vanessa Mussupapo, uma vez diagnosticado, o risco de novos tumores é constante. “Você começa a viver sob vigilância. Qualquer alteração na pele te faz ligar o alerta”, comentou a dermatologista.
O câncer de pele não escolhe classe social, mas o tratamento sim. Historicamente, a quimioterapia foi o principal tratamento sistêmico disponível para pacientes com melanoma avançado, mas seu impacto era limitado. “A quimioterapia tradicional tem uma taxa de resposta baixa no melanoma, além de causar efeitos colaterais severos”, explicou Vanessa Mussupapo. Com o avanço da medicina, a imunoterapia revolucionou o tratamento ao estimular o próprio sistema imunológico do paciente a combater as células cancerígenas, aumentando as chances de sobrevida e reduzindo a toxicidade. No entanto, o acesso à imunoterapia ainda não é garantido para todos os pacientes no Brasil, e muitos acabam recebendo tratamentos menos eficazes. “O problema não é só ter um tratamento disponível, mas garantir que ele chegue a quem precisa no tempo certo”, diz. “Temos uma tecnologia revolucionária, capaz de aumentar significativamente a sobrevida dos pacientes, mas o acesso ainda é muito limitado. Muitos sequer sabem que essa possibilidade existe”, completou a especialista.

O câncer de pele se manifesta em manchas e pintas pelo corpo, como as do rosto de Toaldo | Foto: Ana Carolina Maciel
Após dois anos de tratamento e se ver livre do melanoma, sair dali sem fazer nada por quem viria depois nunca foi uma opção para Carla. Por meio de um grupo de pacientes no Facebook, começou a interagir com outras pessoas na mesma situação e a orientá-las sobre seus direitos legais. Sua atuação chamou a atenção de Rebecca Montanheiro, presidente do Instituto Melanoma Brasil, e de Juliana Moro, então vice-presidente. Juliana, que mantinha a página “Melanoma em Minha Vida” para compartilhar sua experiência com a doença, tornou-se uma referência para muitos pacientes, incluindo Carla.
Em uma pós-graduação em Direito à Saúde, Carla se capacitou para atuar como consultora jurídica voluntária do Instituto. Fundado em 2014, a organização, sem fins lucrativos, atua na conscientização e apoio a pacientes com melanoma, promovendo campanhas de prevenção e ampliação do acesso a tratamentos.
Em 2020, após o falecimento de Juliana, Carla foi convidada para dar continuidade a seu trabalho na vice-presidência do Instituto. Ali ela transformou sua dor pessoal em ação coletiva, priorizando a informação e o acesso à prevenção. “Vi no Instituto a possibilidade de ajudar de uma maneira maior, de conseguir alcançar mais pacientes”, relembra.
Hoje, a advogada fala sobre o câncer de pele com a propriedade de quem não só estudou a doença, mas a viveu no corpo e na alma. Ela sabe que muitos pacientes enfrentam dificuldades que vão além do diagnóstico – como a escassez de protetor solar no SUS. O acesso à proteção adequada ainda é um privilégio para poucos, quando deveria ser um direito de todos.
Durante a apuração desta reportagem, o Instituto Melanoma Brasil e o Botafogo lançaram a campanha “O Patrocínio Que Ninguém Viu”, que incluiu uma pequena pinta de 4 milímetros nas costas das camisas dos jogadores. A cada jogo, a mancha aumentava e mudava de forma, simulando o melanoma. Inicialmente invisível para o público, a campanha ganhou destaque na imprensa e nas redes sociais quando o conceito foi revelado. A advogada esteve presente no lançamento, reforçando a importância do diagnóstico precoce, já que, quando detectado a tempo, o câncer de pele tem 93% de chance de cura.
Carla, versão feminina do germânico Carlo(s), carrega o significado de “mulher guerreira”. E não poderia ser mais adequado. Ela luta não só por si mesma, mas por todos que ainda não sabem que têm um inimigo silencioso crescendo em sua pele. Carlos, que já conheceu a glória nas quadras e levou o nome do Brasil ao pódio, agora enfrenta uma batalha de bastidores, onde a resistência é medida em sessões, cicatrizes e tempo. A advogada e o campeão do mundo têm os nomes e as histórias marcados pelo Sol.

Botafogo realiza ação com Instituto Melanoma Brasil, chamada “O Patrocínio que Ninguém Viu” | Reprodução: Botafogo