Texto nota 10 feito para a disciplina Jornalismo e Geografia das Cidades
22 set 2023
Naquela tarde de mais um pedaço cotidiano no trem da Linha 9 – Esmeralda, um encontro inesperado mudou meu dia. Era um cara. Eu estava com o fone no volume máximo, tentando me abster da velocidade reduzida, do shopping trem e tentando imergir em sono profundo no tempo que me restava até a faculdade. Mas um cara, com um sotaque latino, que segurava alguns livros amarelos em suas mãos, me fez sair do mundinho dos anos 70 do mestre Cartola.
O título do livro, “Nômades Invisíveis”, capturou minha atenção de imediato. O cara dizia, em portunhol, que a autora do livro era sua escritora favorita: a sua filha, que com ele chegou há alguns anos ao Brasil. Enquanto ele contava sua história e seus olhos brilhavam pela pequena que já fazia sua própria autobiografia, a curiosidade me levou a perguntar mais sobre a obra e sua conexão com o Brasil.

Contracapa do livro “Nômades Invisíveis”, de J.E. Lobáton e Mara Koretta | Foto: arquivo pessoal
Com dinheiro contado para o dentista — e, talvez, um almoço —, decidi adquirir o livro. Enquanto folheava suas páginas, o homem começou a compartilhar a história por trás da obra. “Nômades Invisíveis” tratava da complexa questão dos refugiados, um tema que ressoa profundamente em nossos tempos. Ele ressaltou como o Brasil, uma nação conhecida por sua rica diversidade cultural, por vezes tratava os imigrantes como se fossem invisíveis.
Tirei coragem de não sei onde e chamei o cara novamente, mesmo depois de já ter comprado o livro amarelo. Assim como as piores estudantes de direito que já se dizem advogadas antes de encerrar a graduação, eu disse em alto e bom tom que sou jornalista. Disse que costumo escrever sobre refugiados e imigrantes e sou fascinada por esse tipo de relato na literatura. Eu queria entender melhor a perspectiva desse cara e explorar as histórias que ele e sua filha têm para contar.
E o cara brilhou. De repente, iluminou mais o trem do que o reflexo da luz em seus livros amarelos.
No fim daquela infinita viagem, trocamos informações de contato. Por meio da literatura e do encontro com estranhos como esse cara, eu tinha encontrado uma nova fonte de inspiração para dar voz aos “Nômades Invisíveis” que habitam nossa sociedade, enfrentando desafios e buscando uma vida melhor.
Este encontro casual na Linha 9 se transformou em um lembrete poderoso de como as histórias e experiências de pessoas comuns podem revelar as complexidades do mundo ao nosso redor. E eu, como aspirante-pseudo-ajudante-estagiária-júnior jornalista, me senti pronta para embarcar nessa jornada de um curto livro amarelo, de um cara que arriscava um idioma diferente do seu, e compartilhar essas histórias com o mundo. Pelo menos, com o mundinho do Laboratório 11.