A WHIZ bateu um papo com Patrícia Paixão, professora de História da Comunicação, sobre a importância do cinema nacional
07 jun 2023
O cinema brasileiro tem uma rica história que remonta ao início do século XX. Desde então, a indústria cinematográfica no país tem enfrentado altos e baixos, com momentos de grande sucesso e períodos de crise. No entanto, a produção de filmes no Brasil sempre teve um lugar especial no coração dos brasileiros.
A primeira exibição de um filme no Brasil ocorreu em 1896, com o cinematógrafo dos irmãos Lumière. Eram documentários e noticiários com poucos segundos de duração. Nos anos seguintes, foram exibidos filmes estrangeiros no país, mas a produção local ainda era incipiente.
A partir de 1910, foi lançado o primeiro longa-metragem brasileiro, “O Crime dos Banhados” e, em 1913, chega ao público o primeiro filme de ficção brasileiro, “O Crime do Padre Amaro”, baseado no romance homônimo de Eça de Queiroz, famoso escritor português. Surgiram os primeiros cineastas brasileiros, como Humberto Mauro e Mário Peixoto, que produziram filmes de temática rural e experimental, respectivamente. Esse período é conhecido como “Fase Muda”.
Com a chegada do som ao cinema em 1927, o cinema passou por uma grande transformação. O primeiro filme sonoro brasileiro foi “Acabaram-se os Otários”, de 1929. Nos anos seguintes, o cinema brasileiro viveu uma época de grande produção, com destaque para as chanchadas, comédias musicais populares que fizeram muito sucesso entre o público.
Ao longo das décadas, passaram-se diversas fases, incluindo o período do chamado “Cinema Novo” na década de 1960, que buscava retratar a realidade brasileira de forma mais crua e autêntica. Nessa época, surgiram cineastas como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Joaquim Pedro de Andrade. Os filmes desse período abordavam temas como a pobreza, a desigualdade social e a luta contra a ditadura militar. Segundo Patrícia Paixão, 47 anos, professora de História da Comunicação no curso de jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, eram utilizadas metáforas para burlar o regime.

Patrícia Paixão, professora de História da Comunicação | Reprodução: Mackenzie
A ditadura militar gerou grande impacto na produção fílmica do Brasil. Nessa fase surge a Embrafilme, no governo de Emílio Médici, que foi uma grande produtora de filmes nos anos ditatoriais. “Eles criaram essa empresa para ajudar a produção cinematográfica brasileira, mas, obviamente, estava sendo estabelecida no Brasil uma censura. Eles vão acompanhar muito de perto esses filmes que vão sendo produzidos. Nesse sentido, você vai ter relatos de produções que tentam não trabalhar com questões políticas, indo para temas que fossem ter maior respaldo do Estado”, afirma Patrícia.
Nos anos 70 e 80, o cinema brasileiro passou por um período de crise, com poucos filmes sendo produzidos, fruto das censuras do regime militar. No entanto, nos anos 90, houve uma retomada da produção cinematográfica, com filmes como “Carlota Joaquina, Princesa do Brasil” e “O Quatrilho”, sendo indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Com incentivos fiscais e novas políticas públicas de financiamento, surgiram novos cineastas e produções de alta qualidade.
Nos anos 2000, o cinema brasileiro ganhou ainda mais destaque, com filmes como “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite” se tornando sucessos internacionais. Além disso, foram criados programas governamentais de incentivo à produção cinematográfica, como a Lei do Audiovisual e o Fundo Setorial do Audiovisual.
O cinema brasileiro contemporâneo é marcado pela diversidade temática e estilística, com produções que vão desde comédias populares até dramas de autor, além de se destacar em festivais internacionais. Entre os principais cineastas dessa fase estão Walter Salles, Fernando Meirelles e Kleber Mendonça Filho.
A tecnologia digital trouxe uma grande influência para a produção e distribuição de filmes no Brasil. Com a digitalização, a produção de filmes se tornou mais acessível e democrática, permitindo que cineastas independentes tivessem mais facilidade em produzir seus próprios filmes. Além disso, a tecnologia digital também permitiu que a qualidade dos filmes fosse aprimorada, tornando possível uma produção com mais técnica e visual. Com a popularização da internet, surgiram novos modelos de distribuição de filmes, como o streaming, que permitiu que filmes pudessem ser assistidos em casa, em dispositivos móveis ou em salas de cinema, alcançando um público maior e mais diversificado.
Fernanda Montenegro e Vinícius de Oliveira em “Central do Brasil” (1998) | Reprodução: Vogue Globo
Em um Brasil com trajetória tão longa nos telões, ainda há espaço para surgimento de novas ameaças e crises. Para a professora Patrícia Paixão, o cinema tem grande função na sociedade: “O cinema tem o papel de refletir nossa identidade e nossa cultura, mas como ainda temos a prevalência nas nossas salas de filmes americanos, esse reflexo ainda não acontece adequadamente, daí o perigo das nossas produções não terem um equilíbrio com as estrangeiras nas nossas salas. E mesmo nas nossas produções, para que elas de fato venham a refletir nossa realidade, elas precisam ser digeridas de forma mais democratizada, por pessoas negras, indígenas, mulheres”.
A professora e jornalista afirma que os produtores do nosso cinema ainda fazem parte do perfil de brancos, homens, heterossexuais, pertencentes a uma elite que tem dinheiro para estudar cinema dentro e fora do país. “Então, o ideal seria termos mais produções brasileiras, com temáticas nossas, nas salas de cinema. E mais produções cuja representatividade fosse trabalhada desde a raiz, desde os diretores do filme, porque um filme feito por uma pessoa negra, indígena ou por uma mulher vai conseguir contemplar muito mais nossa diversidade em seu conteúdo, seja na temática ou na escolha dos atores, do que um filme feito por um diretor branco, da elite e hétero”, conclui.
∗ Título e linha fina feitos por Mariane Morais.