3 min de leitura

O drama dos primeiros dias

Texto nota 10 feito para a disciplina de Construção de Narrativas

Escrito por

Ana Carolina

Publicado em

22 mar 2024

Essa semana comecei em um trabalho novo. Depois de um ano numa empresa, dei de cara com outra. Entre o intervalo das firmas (leia-se desemprego), aquela ansiedade a mil. O primeiro dia de trabalho. De novo. 

Eu não fujo à regra quando o assunto é a frescurite do primeiro dia. Não só não fujo, como sou particularmente maluca com isso. Aquele medo do ônibus atrasar, do trem dar pau, de ir pela saída errada do metrô, de girar igual uma barata tonta na rua, a preocupação com o look, o cabelo com frizz incontrolável e tantas outras coisas que resultam num piriri danado. Sobre o trabalho novo, não foi diferente. E foi justamente a caminho do meu primeiro dia, que lembrei de outro primeiro dia: 31 de agosto de 2022, matrícula na graduação de jornalismo.  

Pobre é um bicho meio desesperado. Não fujo à regra sobre isso também. Depois da formatura do ensino médio, aquela deprê por não ter sido aprovada nas universidades grandes em fevereiro bateu forte. Eu queria ser jornalista desde que estava envolvida na placenta, então aquilo foi duro para a menina-mulher com seus 18 anos recém completados. As coisas só mudaram de curso quando consegui a bolsa integral no Mackenzie em agosto. 

Fui fazer a matrícula de mochilinha e tudo, pronta para o primeiro dia da minha nova vida de adulta. O baque número um veio aí: o carinha da secretaria me disse que eu poderia já assistir as aulas, que eu estava constando na lista de chamada, mas ia ter que me virar nos 30 para descobrir onde e quais aulas seriam, porque o cronograma completo ainda não aparecia quando digitavam meu nome.

O campus mackenzista parece uma cidade, principalmente para quem tem a vista limitada aos arredores do Grajaú, na zona sul. Eu, tal qual uma caipira, me perdi, óbvio. Falei com um segurança aqui, um funcionário acolá e até entender que o prédio do meu curso ficava fora do campus, demorou. Quando finalmente descobri quais aulas seriam, o baque número dois: a primeira aula do primeiro dia NÃO era no meu prédio. E pior: anotaram para mim o número de um prédio que não existia. “Para onde eu vou?????”.

Hoje, eu sei que aquela aula era de Ética e Cidadania. Essa, especificamente, era ministrada por um reverendo no prédio de arquitetura. Mas como eu ia saber? Me disseram prédio 206, sala 9. Ninguém me explicou que era prédio 9, sala 206. E, mesmo quando perceberam o erro, tudo que eu escutava era: “ué, mas você faz jornalismo, não tem nada a ver com arquitetura, você não tem que ir para lá”. Até ligaram para alguém da secretaria de arquitetura para confirmar e me disseram para não ir. Voltei para o prédio de jornalismo, disseram que não era problema deles, que minha aula não era lá. Voltei para o campus. “Gente, eu não sei!!!! Quem tem que saber são vocês!!!” – Isso foi o que pensei, mas não o que disse. O que eu fiz mesmo foi começar a chorar. 

Ok, você acha mesmo que eu não estou careca de saber que é besteira chorar por uma coisa que dava para ser resolvida em questão de minutos? Se coloque no meu lugar: pobretona, estudou a vida inteira para entrar na faculdade, foi aprovada no lugar mais suco da elite possível, tão grande quanto, sei lá, qualquer parque famoso. Fiquei perambulando, tentando me encontrar por mais de uma hora. Aí tem um ponto: tentando me encontrar mesmo. Não só em busca da sala misteriosa, mas convicta de que ali não era meu lugar, que eu não era boa o suficiente. Que, se eu não achava minha aula no primeiro dia, provavelmente o motivo seria por eu ser incapaz e que não fosse dar conta.

No final disso tudo, eu desisti. Saí do campus chorando e fui para casa frustrada. Menti para os meus pais e disse que foi tudo maravilhoso, que as salas eram cheirosas, que fui bem recebida e que era exatamente aquilo que sempre sonhei. Mas, na verdade, tudo que permeava meu cabeção era que eu nadei para morrer na beira da praia, que o primeiro dia serviu para selar todo meu restinho de dignidade.

Foi com esse otimismo todo que, depois de quase dois anos, eu fui para o primeiro dia de estágio. Pensando que ia acontecer tudo de novo, que ia ser todo aquele desgaste sem fim. E não foi. Na verdade, tirando o fato de que a correria me fez esquecer a marmita em casa (alguma coisa ruim obrigatoriamente tem que acontecer), foi tudo ótimo. Na faculdade, ficou tudo bem também. Acaba que a gente cresce e aprende a lidar com todo esse dramalhão. Às vezes, os primeiros dias não são tão importantes assim.

Conteúdo copiado!