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Dependente do petróleo, Oriente Médio busca protagonismo na transição energética

Região aposta em projetos nas áreas de turismo, inovação tecnológica e finanças; empresas chinesas têm sido fundamentais no fornecimento de equipamentos e em parcerias na construção de infraestruturas

Escrito por

Ana Carolina

Publicado em

18 nov 2024

A transição energética no Oriente Médio está em um momento decisivo. Historicamente dependente de combustíveis fósseis, a região enfrenta o desafio de diversificar suas economias enquanto se ajusta à crescente pressão global por descarbonização. Países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Marrocos estão na linha de frente dessa transformação, que promete remodelar o cenário energético e econômico da região, mas não sem enfrentar grandes obstáculos.

A dependência de receitas do petróleo tem sido um pilar econômico para nações como a Arábia Saudita, onde até 50% do PIB ainda está vinculado à exploração de hidrocarbonetos, segundo o Middle East Institute. Essa realidade, contudo, tem se tornado insustentável diante das flutuações do mercado e do avanço das mudanças climáticas. Para Li-Chen Sim, professora assistente da Universidade Khalifa, nos Emirados Árabes Unidos, e acadêmica não residente do Instituto do Oriente Médio dos EUA, os desafios da transição para energias renováveis no Oriente Médio são multifacetados. “Todos os países do Oriente Médio dependem fortemente dos combustíveis fósseis para gerar energia, mas os desafios para migrar para as renováveis variam. Faltam recursos financeiros em alguns lugares, enquanto outros enfrentam entraves regulatórios e burocráticos”, afirma. Contudo, as possibilidades de mudanças continuam esbarrando nos impactos causados no mercado de trabalho. Na Arábia Saudita, por exemplo, o petróleo corresponde a 90% de suas exportações e a 75% das receitas orçamentárias, além de ser uma área que depende muito de mão de obra estrangeira e em condições precárias. 

Apesar das dificuldades, os Emirados Árabes Unidos têm se destacado com iniciativas como o Parque Solar Mohammed Bin Rashid Al Maktoum, que terá capacidade de 5.000 MW até 2030, suficiente para abastecer milhões de residências. Já a Arábia Saudita aposta em grande escala no hidrogênio verde, com o ambicioso projeto NEOM, que deverá produzir 650 toneladas diárias até 2025. Segundo o Natural Resource Governance Institute, esses dois países do Golfo estão equilibrando a necessidade de continuar sendo protagonistas globais de energia, enquanto diversificam suas economias para um futuro de baixo carbono​.

Marrocos, por sua vez, lidera com o Complexo Solar Noor Ouarzazate, o maior projeto de energia solar concentrada (CSP) do mundo, que reduz a dependência de importação de energia e gera empregos locais. De acordo com a Agência Internacional para as Energias Renováveis (IRENA), esse projeto visa reduzir a dependência do país em importação de energia, contribuindo para a meta de Marrocos de gerar 52% de sua eletricidade a partir de fontes renováveis até 2030. “Projetos como o Noor mostram que parcerias internacionais podem unir diferentes expertises e impulsionar a inovação tecnológica, além de garantir segurança no fornecimento”, afirma Li-Chen Sim. 

Essa crescente aposta em renováveis reflete uma mudança estratégica dos países produtores de petróleo do Golfo, que reconhecem a necessidade de diversificar suas economias. Leila Dagher, assessora sênior de política econômica da Universidade Libanesa Americana, enfatiza: “No curto a médio prazo, investir em turismo, manufatura avançada, serviços financeiros e indústrias baseadas em tecnologia pode reduzir a vulnerabilidade às flutuações de preços de combustíveis fósseis. Outra alternativa promissora é a produção de energia renovável, especialmente hidrogênio verde. Com luz solar e terra abundantes, esses países têm o potencial de se tornarem líderes em exportações de energia renovável, não apenas para uso regional, mas também para mercados globais”.

A colaboração internacional tem sido fundamental nessa transição. A China, por meio da Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI), investe fortemente na região, fornecendo equipamentos e tecnologia para projetos como o Parque Solar de Benban, no Egito. Em 2022, as exportações chinesas de produtos fotovoltaicos atingiram US$51,25 bilhões, de acordo com o Middle East Economic Survey (MEES), com boa parte destinada ao Oriente Médio. Essa parceria estratégica não apenas acelera o ritmo de adoção de energias renováveis, mas também garante transferência de tecnologia e geração de empregos. Para Li-Chen Sim, “as empresas chinesas têm sido fundamentais, tanto como fornecedoras de equipamentos quanto como parceiras no desenvolvimento de infraestrutura. No futuro, é provável que vejamos mais joint ventures, beneficiando ambas as partes”, observa a professora.

Entretanto, a transição não é homogênea. Países como Omã enfrentam grandes desafios econômicos, precisando de mais de US$ 25 bilhões em investimentos até 2040 para completar sua transição energética, segundo a IRENA. Além disso, a crise climática agrava a situação: de acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), as temperaturas médias no Oriente Médio e Norte da África aumentaram 1,5°C nas últimas décadas, e a escassez de água representa uma ameaça crescente. “Como esses países já são impactados pelos preços voláteis dos combustíveis fósseis, mudar para fontes renováveis pode aumentar a segurança energética e reduzir os custos de energia a longo prazo. No entanto, essas nações geralmente enfrentam restrições orçamentárias, recursos limitados e falta de infraestrutura, o que torna desafiador financiar projetos renováveis. A instabilidade política pode atrasar ainda mais o progresso”, ressalta Leila Dagher. 

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