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Adolescentes descobrem jornalismo e conquistam Grajaú (SP)

Projeto de mídia de alunos da ETI Adelaide Rosa vai para além dos muros da escola

Escrito por

Ana Carolina

Publicado em

28 set 2023

Localizado no extremo sul de São Paulo, o distrito do Grajaú é o maior da cidade em termos de população. Com meio milhão de habitantes, a região também detém o título de periferia mais populosa da capital. Ainda assim, mesmo sendo batizado por jornais e sites de notícias como “o pior local para se viver”, alunos do ensino médio e fundamental da escola Estadual Professora Adelaide Rosa Fernandes Machado de Souza mantêm um jornal escolar que ultrapassa o universo educacional e chega para os moradores como fonte de boas notícias.

A Escola de Tempo Integral está em um ponto chave da região, na avenida Dona Belmira Marin, a principal via do Grajaú, responsável pelo acesso aos principais bairros. A localização fácil, atrai adolescentes de diversas partes do distrito.

Repórter desde o Ensino Médio

A história da ETI Adelaide Rosa se mistura com a desta repórter, desde o primeiro ano do ensino médio, em 2019. Era um lugar espirituoso, sendo um teste do governo do estado de São Paulo para a implementação do ensino integral. Nessa nova empreitada, os alunos da rede tinham disciplinas fora da grade padrão e uma delas era, a hoje famosa pelos colégios do país “projeto de vida”. Nessa nova matéria, o corpo docente ficava a par do que todos os alunos “queriam ser quando crescessem”. A partir daí, eles nos ajudavam a trilhar o caminho até alcançarmos nossos objetivos. O meu, era ser jornalista.

No ano de 2020, assim como no resto do mundo, a quarentena atingiu a Adelaide Rosa. Nesse período, a escola que era, até então, restrita ao ensino médio, passou a receber matrículas de alunos do ensino fundamental II, que vai do sexto ao nono ano. A “geração pandemia” não chegou a conhecer o antigo funcionamento da escola, e os veteranos se viram perdidos com as mudanças que a pandemia do Covid-19 trouxe.

No maior momento de tensão da história recente do país, o professor de geografia, Mário Barros, de 36 anos, começou a pensar em como transmitir para os novos discentes o antigo espírito da escola. Em 2021, a ideia de trazer boas novas se tornou ainda mais clara. Além das várias perdas de familiares e amigos para o coronavírus, a escola sofreu com a perda de uma das alunas, que cometeu suicídio. Na volta às aulas, os corredores da Adelaide Rosa estavam repletos de alunos assustados, tristes, de luto e professores que não sabiam o que fazer com a situação.

Professor Mário Barros e Ana Carolina Maciel | Foto: Isadora Silva

No segundo semestre daquele ano, o professor Mário, sabendo que havia uma aluna que queria ser jornalista, me chamou para criar um jornal da escola. A ideia naquele momento era relembrar os antigos projetos de anos passados, trazer de volta alguns episódios marcantes da história da Adelaide e ser fonte de entretenimento e esperança para os estudantes. O professor já tinha participado de publicações de jornais em outras escolas e, para ele, faltava isso no ensino integral: “Eu via que, antes, a Adelaide Rosa era um lugar com diversidade de projetos. Eu pensei: ‘por que não valorizar?’” – comentou Mário, em entrevista.

O jornal foi batizado de “Folha do ADÊ”, fazendo analogia à Folha de S. Paulo e ao apelido carinhoso da escola. Na primeira edição, toda a trajetória da Adelaide Rosa foi reapresentada e exposta nas paredes do local, o que chamou a atenção de alunos, professores e pais.

A princípio, o projeto era composto por uma só pessoa, mas chegou a contar com mais de 30 alunos de diferentes faixas etárias e ultrapassou os limites da escola nas edições seguintes. Com o jornal, nasceu a conta no Instagram e coberturas de eventos internos e externos. O Folha do ADÊ passou a não só tratar de assuntos da escola, mas também compartilhar curiosidades e acontecimentos da região, o que trouxe uma visibilidade ainda maior para a iniciativa. “Eu não pensei que fosse dar essa repercussão toda”, destacou Mário.

Ingrid Brito e Isadora Silva | Foto: Ana Carolina Maciel

Após minha formatura, em 2022, o projeto deu sequência sob liderança da aluna Myrla Figueiredo, de 18 anos, em conjunto com Ingrid Brito, hoje com 15 anos, aluna do nono ano. Dado o tamanho do reconhecimento, o Folha do ADÊ se tornou a imprensa escolar oficial da Diretoria de Ensino Região Sul 3 e ficou responsável pela cobertura e divulgação de eventos promovidos pelo órgão. O jornal está hoje na sua sétima edição, conta com mais de 700 seguidores no Instagram e tem cerca de 15 participantes. A publicação também foi tema de uma matéria na revista Porvir, participou da série “Idade da Mídia”, da Globoplay e foi mencionada no podcast Rádio Escafandro, do jornalista Tomás Chiaverini. “Eu espero que ‘o Folha’ nunca acabe, porque tomou uma proporção muito grande e eu vejo que é um projeto que faz bem para a escola também. Eu ficaria triste se acabasse” – afirmou Ingrid, atual líder da imprensa jovem.

A imprensa independente no Grajaú

Há alguns anos, o jornalismo independente vem ganhando forças no Grajaú. O “Grajaú Tem”, uma das publicações locais mais conhecidas da região, conta com 384 mil seguidores no Facebook e quase 70 mil no Instagram. O destaque também é válido para a Revista Grajaú, que conta com seu próprio portal e acumula pouco mais de 1.300 seguidores.

Para Renan Sukevicius, de 30 anos, grajauense, apresentador do BandNews São Paulo Segunda Edição e autor do livro “Quase Verão”, o que pode explicar o fenômeno da “imprensa glocal” na região é o fato da cidade estar superpopulosa e o jornalismo tradicional não conseguir abranger todos os locais: “É desafiador fazer jornalismo local numa cidade como São Paulo, com mais de 12 milhões de habitantes, números de um país, com distritos que têm o tamanho de cidades médias. Muitos assuntos importantes acabam ficando de fora. É compreensível que as pessoas queiram saber o que está acontecendo agora na sua própria rua ou na rua principal do bairro, e não na principal e mais movimentada via da cidade”, indica Renan.

Para o jornalista, outras narrativas permitem que territórios periféricos tratem de outros temas que não só a violência urbana, pela qual as periferias são majoritariamente retratadas na imprensa. “Num olhar de fora, historicamente, é como se as regiões mais centralizadas fossem mais diversas e tivessem mais complexidades a serem exploradas e, à periferia, cabem os casos de crimes ou de fatos extremamente excepcionais. Quem vive na periferia sabe que não. E talvez o jornalismo hiperlocal, olhando tudo mais de perto, reforce esse olhar diverso”.

Jornal Folha do ADÊ é produzido pelos próprios alunos | Foto: Ana Carolina Maciel

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